
Em tempos conheci um senhor já com os seus noventa e tal anos que até essa altura andou sempre de enxada nas mãos a cuidar do que tinha, chamavam-lhe avô Zé e era uma pessoa com uma memória notável. Quando a esposa faleceu viu-se perante a ganancia dos filhos e restantes familiares e então teve uma ideia estarrecedora mas funcional, resolveu fazer as partilhas dos bens como se ele já tivesse falecido, dividiu as terras, o dinheiro e até deu a própria casa a uma das filhas mas só sob a condição dela cuidar dele até ao dia da sua morte, inteligente não?! Com o abandono de idosos que há por aí acho que ele quis garantir que não acabava sozinho e conseguiu mas ainda há mais, na altura em que fez as partilhas comprou uma campa ao lado da sua esposa já com todos os ornamentos feitos apenas com a laje em branco e pagou a uma funerária pelo seu futuro funeral, tudo para não terem de gastar um cêntimo que fosse com ele. Faleceu aos 96 anos e o sermão do seu funeral foi o mais sábio que ouvi até hoje, não é que tenha ido a muitos mas aquele teve algo especial, não houve hipótese das pessoas se revelarem falsamente consternadas como se vê por aí muitas vezes, pois o padre ( novo por aquelas paragens) parecia conhecer os pontos fracos de todos aqueles gananciosos. " Será que vale a pena ambiciar-mos o que não é nosso, querer-mos terras e mais terras, contas recheadas nos bancos...se no final, sejamos pobres ou ricos, quando chega a nossa hora a única coisa que levamos connosco é o traje e a única terra de que ficamos detentores são os sete palmos que nos deitam por cima!? "-Palavras do padre durante o sermão, bem o silêncio foi avassalador e disse tudo, fiquei fã desse padre parece que viu a alma daquela gente, é estranho mas é verdade.
Ainda hoje penso nisto e já lá vão uns bons anos, porque será?
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