quarta-feira, 11 de março de 2015
Respirar Medo
Tempos houve em que deixei toda a minha vida pra trás, tempos houve em que fiquei sem nada, sem casa, sem roupa, sem comida, sem filho, sem dinheiro, sem dignidade...apenas com um carro de dois lugares na mão.
Após mais uma tareia, uma faca encostada à garganta e um quarto todo partido valeram-me dois minutos de sanidade mental da outra parte..."Tens dois minutos para fugires ou já não sais daqui viva", estas palavras ainda hoje ecoam na minha cabeça nos meus momentos mais negros...estes dois minutos foram os mais longos da minha vida, enquanto era observada como se fosse uma peça de caça, pronta para a matança, agarrei a única coisa que estava ao alcance no caminho para a porta, a chave do carro. Liguei o carro e fugi, fui perseguida mas consegui.
Quinze dias, foi o tempo que morei no carro. Durante quinze dias ia trabalhar, tomava banho lá, alimentei-me de água e bolachas que encontrava soltas nos escritórios que ia limpar, o que não era muito mas deu para sobreviver. Saía do trabalho e ia esconder o carro dentro do mato escuro como breu, o frio das noites também não ajudava assim como os barulhos que se ouviam no exterior, eram noites de pânico e o meu medo maior era ser apanhada.
Nesta fase ninguém soube o que se estava a passar, por vergonha e não deixei que ninguém soubesse, não desta vez. Outras vezes houve em que fiquei escondida na casa de colegas de trabalho, outra vez até na casa da mãe de uma fiquei a dormir no chão e agora perguntam-se, " Porque voltava?", a resposta é simples e só quem passa ou já passou por isso sabe o que é, eu era ameaçada, a vida do meu filho era ameaçada, a vida dos que ajudaram era ameaçada e, para além de tudo isto, a realidade é que estava a 350km da pouca família que tinha e sem nada. Quando chegava a casa tinha de agir como se nada se passasse, fazer todos os chamados "deveres" da mulher sem reclamar, basicamente, fingir até à próxima vez... Várias foram as vezes em que procurei ajuda policial mas a resposta era sempre a mesma, "Enquanto não for apanhado em flagrante, nada podemos fazer", liguei para APAV, só tinham vaga em Coimbra e eu tinha de lá ir ter, sem dinheiro e dessas vezes sem carro, como é que eu ia para Coimbra?! Desta fez, com o carro foi diferente, não voltei, estava estarrecida de medo mas mantive-me firme e foi a melhor coisa que fiz, apesar dos tempos a seguir não terem sido nada fáceis. Mas há uma coisa positiva que tirei de tudo isto, perdi os meus medos, tanto pânico acumulado serviu para alguma coisa.
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