
Nunca fui uma pessoa de grandes ambições, geralmente, contento-me com o que posso ter, nunca disse ter o que não tinha nem ser o que não era, cada um tem o que pode e é como é. Quem gosta de nós tem de o fazer pelo que nós somos e não pelo que aparentamos ser ou ter a isso chamam-se pessoas interesseiras, gostava de ser rica, mas também quem não gostava!? Mas será que seria feliz?! Uma coisa é certa, haveria muito boa gente que nunca quis saber de mim para nada que andaria atrás de mim se soubessem que tinha alguma coisa para lhes dar, para além do meu ser mas, sinceramente, aí era eu que lhes ia virar as costas. Mudando de assunto, quando era miúda sempre quis uma bicicleta, ficava fascinada por ver os outros miúdos a andarem e então todos os anos me prometiam uma caso eu passasse de ano na escola, todos os anos eu passava e bicicleta nem vê-la. A dada altura uma prima minha ganhou uma de presente, não posso dizer que tenha ficado com inveja, mas custou-me ver que os outros tinham sempre tudo e nem se precisavam de esforçar e eu nunca tinha nada, a roupa era dada de outros miúdos, os bonecos, grande parte, improvisados por mim e a bicicleta continuava tão longe! Foi então que resolvi aprender a andar, pedi á minha prima e ela deixou-me tentar e tentar...quando estava quase a conseguir, levei com uma banhada de água a ferver pelas costas abaixo e fui parar ao hospital com as mesmas completamente queimadas, uma das minhas primas pôs-se a fazer o almoço e o excedente de água que tirou da panela jogou-o pela janela fora e estava lá eu para levar com ela, felizmente não restaram marcas. Vim do hospital toda ligada da cintura para cima mas a vontade era tanta que ignorei as dores e fui voltar a tentar andar, para meu espanto, consegui, a partir daí nunca mais me esqueci de como se fazia. Cresci e nunca ganhei a dita bicicleta, quando tinha onze anos comecei a trabalhar em restaurantes durante as férias e adivinhem só o que comprei com o meu primeiro ordenado?! Uma bicicleta novinha em folha, toda minha, era linda!! Por essas e por outras é que acho que nunca devemos prometer ás crianças o que não lhes podemos dar, pois eu passava de ano de qualquer jeito sem haver a necessidade de me andarem a iludir e a decepcionar durante anos e anos. O meu filho sabe que ganha sempre uma prenda de passagem de ano, mas nunca lhe digo que é isto ou aquilo, quando chega a altura ele sabe que só se eu não puder é que não está lá aquilo que deseja, para quê prometer o que não se pode dar?!
1 comentário:
Lindo relato, Xana! De vez em quando espreito os teus "escritos" e fico fascinada.Belo testemunho de luta pelo que se almeja. "Gostar de ter" nada tem a ver com inveja, só que nem sempre o nosso querer chega onde desejamos. Orgulha-te da tua forma de estar, pois de facto cada um deve sentir-se bem com o que tem!Continua, e pensa em breve em escrever algo de mais profundo---UM LIVRO!
bjs
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