quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O meu pai

Em toda a minha vida recordo-me apenas de duas das vezes que vi o meu pai, a primeira tinha seis anos e foi no tribunal e da segunda tinha cerca de onze anos. Ele alegou, nas vezes que falei com ele, por telefone, que tentou várias vezes levar-me para perto dele quando eu era bebé mas que os meus avós nunca deixaram, a minha avó nega que ele alguma vez tenha querido saber de mim e tenho uma tia que confirma as palavras dele e outra que confirma as da minha avó e, no meio de tudo isto, acho que nunca saberei a verdade se é que algum deles a diz e não há uma terceira versão dos factos. A primeira recordação que tenho dele foi de quando teve de ir a tribunal devido á minha custódia e por causa do abono que teria de me dar todos os meses. Lembro-me de estar ao colo dele e os seus braços a agarrarem-me como se não me quisessem largar, enquanto a esposa lhos beliscava para que ele me largasse, uma mulher loira de cabelo liso pouco abaixo das orelhas, toda ela vestida de vermelho com um cinto preto, essa é uma imagem que jamais me sairá da cabeça e as unhas dela, também pintadas de vermelho, a entrarem pelos braços dele também não. Eu era tão pequena, mas,pelos vistos já era uma ameaça para algumas pessoas. Entretanto ele foi embora e só o voltei a ver cinco anos depois, estava nas aulas e entrou uma funcionária na sala a pedir para eu ir ao conselho directivo, fiquei em pânico, mas quando lá cheguei estava o meu pai á minha espera. Nessa tarde fui dispensada das aulas, ele levou-me para almoçar num café ali perto e não comeu, lembro-me de um risco rosa fluorescente que ele tinha na mão e de me ter prometido montes de coisas que nunca cheguei a ver e foi embora e nunca mais o voltei a ver. Passados muitos anos consegui a morada dele na Madeira e através disso o número de uma vizinha que me deu o número dele, fiquei extasiada, nem queria acreditar! Mas ele começou a exigir demais de mim, mesmo sendo só por telefone, ficava ofendido porque eu o tratava por você e não por pai, ficou chateado porque não lhe liguei no dia do pai nem no aniversário...enfim, tretas! Nunca na vida chamei pai a quem quer que fosse, mas, na cabeça dele, eu tinha de o conseguir fazer instantaneamente e as coisas não são assim, a mim nem um postal de parabéns me mandou na vida e eu era obrigada a lembrar-me do dia do pai (que nunca tinha festejado) e do aniversário dele!? Depois vieram os ciúmes da minha irmã que também não conhecia e pronto, actualmente voltámos á estaca zero, antes era porque não tinha a menor ideia de como o contactar, agora tenho o número de telefone e a morada e não o faço porque sou acusada de o ter ido destabilizar na sua vidinha descansada. Shakespeare dizia " Ser ou não ser..." e eu digo " Ter ou não ter...", entristece-me esta situação mas não posso intervir onde não sou desejada, não é!?

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